Author Topic: Barbearia Nova Era  (Read 1147 times)

Offline JL

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Barbearia Nova Era
« on: May 10, 2011, 05:26:17 pm »
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<a href="http://www.youtube.com/watch?v=-jZLkt5i834" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?v=-jZLkt5i834</a>

Barbearia Nova Era - Reportagem Cartola Agência de Conteúdo

Reproduzo aqui o texto:



Nova Era, uma barbearia

Uma contribuição de Alexandre de Santi, de Porto Alegre, para a Cartola – Agência de conteúdo.

Raimundo Lobato Flores saca a navalha da gaveta. Em gestos vigorosos, esfrega a lâmina na palma da mão, surpreende o interlocutor. De um lado para outro, bem rápido, sem qualquer receio de cortar a carne, Lobato mostra como os calos podem afiar o aço. “A pele da mão é mais grossa”, explica.

Segurando o instrumento de trabalho com o indicador e o polegar da mão esquerda, o cabo avermelhado aberto entre o anelar e dedo médio, manuseio típico dos profissionais do passado, o barbeiro de 66 anos passa a navalha no ar. Lentamente, de cima para baixo, faz a barba de um rosto imaginário. “Depois tu limpa (simula o enxágue na pia), passa na mão (afia a lâmina na palma mais uma vez) e começa de novo”.

Lobato vem de um tempo em que homens afiavam a navalha na mão. Aprendeu a profissão com o pai, aos 13 anos, e nunca mudou de ramo. Agora, como um dos sete barbeiros do salão Nova Era, no centro de Porto Alegre, onde algumas barbearias resistem ao avanço de aparelhos elétricos e lâminas ultratecnológicas, equipadas com amortecedores de Fórmula 1 e capazes de proporcionar rostos lisos e magnetismo suficiente para atrair a mais fenomenal das mulheres (lições dos comerciais de TV), o profissional relembra tempos antigos, quando a navalha era inseparável.

Enquanto limpa o meu rosto, prestes a barbear um jovem de 29 anos que nunca havia sentido o toque frio do aço na face, Lobato conta como passou a lâmina em homens elegantes da alta sociedade gaúcha. Principalmente quando trabalhava de guarda-pó branco e gravata preta no tradicional Salão Gomes, uma das barbearias mais populares de Porto Alegre no século passado, residente do número 44 da Avenida Salgado Filho, próximo da Praça da Matriz, onde governadores, deputados, desembargadores e arcebispos compartilham a vista da cidade.

“Antes, tinha pouco salão e muito serviço”, diz, dando a entender que vive situação inversa no Nova Era. De navalha em punho, o cabo entre o anelar e o médio, Lobato teve inúmeras oportunidades para degolar o alto poder gaúcho num único gesto. Talvez para preservar a clientela, poupou o pescoço dos clientes do Salão Gomes, onde atuou por 20 anos. O Gomes fechou (uma lancheria ocupa o endereço hoje), mas o barbeiro segue em atividade no modesto salão porto-alegrense, espelhado de canto a canto, mobiliado com pesadas cadeiras de couro branco e peças cromadas, suspiros do passado.

Minutos antes de afiar a navalha na mão, Lobato posicionava o lenço vermelho e branco sobre o meu avental. As listras do pano lembravam um pirulito de barbearia, aqueles pequenos cilindros que decoram salões de barba e cabelo em desenhos animados – alguns giram, outros são estáticos, como no episódio “Barbeiro de Sevilha”, sucesso do desenho do Pica-Pau. Confortado pela lembrança do pirulito alvirrubro, eu, que pela primeira vez contratava o serviço de um profissional para aparar os pelos faciais, viajei no tempo e deixei a nostalgia do salão me seduzir.

Lobato exibe uma barba grisalha e bem aparada, feita pelo próprio, que decora o rosto marcado pela careca e cabelos penteados para trás. Sem cerimônia, o profissional saca um tubo da mesa e passa o creme gelado no meu rosto. “É Água Velva”, explica. “Hoje, chamam de loção de barba, mas isso aqui é Água Velva”, completa, como se falasse para um pupilo. Dias depois, o Google me explicou que Áqua Velva Williams era o único aftershave do mercado há 40 anos.

Enquanto a Água Velva arde e refresca a face, Lobato coloca uma venda nos meus olhos. Hmmm. No escuro, um zumbido familiar toma conta do salão. Bzzzzzzzzzzzzzzzzz. Seria um barbeador elétrico? O que um aparelho elétrico estaria fazendo nas mãos de um barbeiro autêntico? Cadê a navalha? Vim pela navalha!

A busca pela barbearia começou quando meus dois aparelhos elétricos sucumbiram à obsolescência programada da indústria eletroeletrônica. Morreram depois de aparar os pelos do meu rosto desde a puberdade. Na preguiça de adquirir novos barbeadores, me veio o desejo de sentar na cadeira do salão, um ritual exótico para a minha geração. Não conhecia viv´alma que tivesse entregue o rosto à navalha. Voltar ao barbeador elétrico não fazia nenhum sentido.

Cogitei abandonar o Nova Era e seu bzzzzzzz moderno, mas Lobato me tranquilizou: “Só vou tirar o excesso”. E assim o fez. O barbeiro sacou a venda, alcançou uma garrafa térmica e pôs um tanto de água fumegante no pequeno pote de misturar sabão. Mexeu vigorosamente o pincel e espalhou a espuma cremosa no meu rosto. “Hoje, com esses aparelinhos, dá para fazer a barba até embaixo do chuveiro. Mas espuma de sabonete não é boa, resseca a pele”. Da gaveta, ele tira a navalha.

Antes de chegar ao Nova Era, por volta das 9h, passei por outras barbearias e vi cadeiras vazias vigiadas por barbeiros entediados. Em um dos salões, um distinto senhor grisalho, terno claro, camisa azul e gravata amarela, sentava de pernas cruzadas na cadeira do barbeiro, confiante na habilidade do profissional da lâmina. Lobato me disse que, entre os clientes da navalha, raros vestem terno claro, embora todos sejam grisalhos. “O cliente que faz barba é mais antigo. São coronéis e deputados, esse tipo de gente”, me contou mais tarde a proprietária do salão, Marlet Borges, de 46 anos.

Marlet assumiu o negócio há três meses. O fundador do Nova Era, José Edemar da Silveira, sucumbiu ao câncer cedo na vida, com 54 anos, e deixou o estabelecimento criado há 23 anos de herança para a mulher. “Vou ter que assumir, né?”, conforma-se Marlet, a ex-dona-de-casa convertida em empresária da estética. O salão recebe aproximadamente 70 clientes por dia, cerca de 30% fazem a barba. “Acho que está reduzindo o movimento da barba. Hoje em dia, tu compras um aparelhinho e faz em casa”, explica.

Por dia, Lobato passa a navalha em cinco ou seis rostos, um rendimento de R$ 6 por barba. O serviço custa R$ 10, o salão fica com 40%, mas o profissional não reclama do faturamento acanhado, compensado pela aposentadoria pública, suficiente para pagar as contas. “Nunca parei para contar quanto ganho. O que entra num bolso, sai no outro”, diz, sorrindo, feliz por cultivar a mesma profissão há 53 anos. Afinal, se poucos fazem a barba fora de casa, muitos ainda cortam o cabelo na rua, e Lobato também apara cabelos. “Mas me considero barbeiro. Alguns falam cabeleireiro, mas cabeleireiro não faz barba. Só faz cabelo. Eu não, faço os dois. Sou barbeiro”, insiste.

A lâmina desliza macia no meu rosto, feito carinho de mãe. De súbito, o barbeiro, sem esconder o entusiasmo pela minha curiosidade, revela a mais chocante informação da manhã: a navalha não é uma navalha, mas uma falsa navalha, a chamada meia lâmina. “Como assim, seu Lobato?”, retruco decepcionado. “A gente não usa mais navalha há uns 30 anos. Agora é só meia lâmina. É mais prático, é só trocar a lâmina a cada barba. Não precisa ficar afiando toda hora”, explica, antes de fazer o movimento de vai e vem na mão, adiantando que o novo método também é mais higiênico em tempos de AIDS e fiscalização da vigilância sanitária. Nova Era, definitivamente, não é apenas um adesivo na vitrine do salão.

O desapontamento logo deu lugar à curiosidade pelo artefato, que esconde – vejam só – meia gilete no espaço da lâmina. Fechada, é impossível diferenciar uma navalha de uma meia lâmina. Talvez nostálgico do tempo em que detinha o poder público sob seu controle, Lobato mantém a verdadeira navalha na gaveta.

Aos 13 anos, ainda engraxate do elegante salão onde seu pai trabalhava como barbeiro, foi surpreendido em casa. O pai chegou com um saco de balões, desses de aniversário. A bexiga foi inflada, e o mestre ensinou o filho a passar espuma na borracha. Entregou a navalha ao filho, que deslizou a lâmina num movimento hesitante. “Quando eu errava, POF, estourava o balão e levava um cascudo do pai. Ganhei muito cascudo por estourar balão”, recorda.

O barbeiro conta que o pescoço de Leonel Brizola era habitualmente entregue aos cuidados do seu pai. Na esperança de manter viva a profissão, Lobato tentou ensinar dois dos quatro filhos a escanhoar balões de aniversário, mas os garotos não levavam jeito para segurar a navalha. “Pena que nenhum deles quis seguir a profissão. Um até que tentou, mas desistiu”, lamenta.

Mesmo com meia lâmina, Lobato tira a minha barba sem obstáculos. Antes de terminar, pergunta: “Tiro o bigode?”. De cara limpa e realizado por ter encontrado um lugar onde os homens ainda consideram o bigode, pensei em levantar e me despedir, mas sou surpreendido novamente. No barbeiro, a barba sai em duas demãos. Lobato saca o pincel e ensaboa meu rosto novamente. Não há charme no segundo corte: o trabalho é feito com uma gilete ordinária, as amarelinhas vendidas em pacote. Passando a lâmina debaixo para cima, arrancando qualquer toco de barba como se preparasse meu rosto para formatura do Exército, Lobato lamenta os anos que passei arrancando os pelos com aparelhos elétricos. “Eles torcem a raiz, fica tudo torto. Ó, acabo te cortando”, disse.

De fato, sinto o ar penetrar em alguns pontos da minha pele enquanto o barbeiro abana meu rosto com um secador de cabelo decorado com adesivos de uma Ferrari e um Porsche. “Tá vendo estes cortes? Agora, vou passar um produto, tu deve conhecer: pedra-ume”, diz. Nunca tinha ouvido falar. A pedra tinha aspecto de um sabonete translúcido. Lobato esfrega o produto na minha cara. Arde muito. Como se jogassem sal nas feridas.

Os pequenos cortes se fecham e a pele enrijece. “Este aqui não arde muito. Tem outro que arde mais ainda”, diz. Lobato passa loção nas mãos e apalpa minhas bochechas delicadamente. A ardência volta, mas agora com toque de frescor. Com o secador de inspiração masculina ligado na minha cara, lenço listrado em punho enxugando todos os cantos, o barbeiro varre a sujeira do avental, tenta pentear o meu cabelo, desiste rápido, e finaliza o serviço.

Me sinto limpo e cheiroso, como se saísse do banho.

Marlet não esconde o medo de abraçar uma nova profissão: “Agora, sei lá, vamos nos organizar”. Mas o faturamento do salão, posicionado na Andrade Neves, rua de tráfego intenso de pedestres, com escritório e lojas por toda a volta, empolga a nova empresária. A despesa é pequena, explica, e os profissionais têm experiência – os sete sabem barbear e fazer cabelo, garante. E o mundo dá voltas. Marlet acompanhou as reclamações do marido, que viu o movimento da barba cair nos últimos anos. Entretanto, as modas vão e vêm, os homens voltaram a ficar vaidosos, e a dona do Nova Era confia em um novo ciclo da barba. “Teve uma época que era comum homem fazer mão e pé. Todo homem fazia. E isso parou por um tempo. Mas tem muito homem voltando a fazer as unhas. Pode acontecer o mesmo com a barba. De repente volta, né?”.

Talvez. Ainda não comprei um novo aparelho elétrico. Mas, seu Lobato e dona Marlet, senti falta das toalhas quentes. Não esqueçam delas no mês que vem.

O vídeo e a reportagem Nova Era, uma barbearia podem ser livremente reproduzidos, na condição de que seja respeitada sua integridade e citados o autor e as fontes.


José Luís Tomé Gonçalves - Aspirante a ajudante de auxiliar de aprendiz
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Offline eduzaneti

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Re:Barbearia Nova Era
« Reply #1 on: May 10, 2011, 05:48:05 pm »
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É como o senhor diz né, quem sabe um dia volta a moda...
Eduardo Zaneti 
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Offline bleddyn

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Re:Barbearia Nova Era
« Reply #2 on: May 10, 2011, 06:49:07 pm »
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Está muito bom o video. A parte final do escanhoado com a BIC é que estraga tudo.

Offline Mengao

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Re:Barbearia Nova Era
« Reply #3 on: May 10, 2011, 09:09:51 pm »
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Muito legal!

Eu tinha o habito de procurar barbearias nas cidades do interior (viajo muito a trab para cidades do interior do sul do Brasil)
Sempre em cada viagem, pelo menos um dia, fazia a barba em alguma barbearia com um bom velinho a contar historias e fazer a barba.

mas depois que comecei a usar produtos de qualidade e fazer a barba com DE não tenho mais frequentado essas barbearias.
life's too short to shave with poor shaving soap

Offline GADREL

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Re:Barbearia Nova Era
« Reply #4 on: May 11, 2011, 08:05:08 am »
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Belo vídeo Caro José Luís, parabéns.
Parece que és especialista em bons vídeos. :D
Abraços.
LEGIO PATRIA NOSTRA.

Offline JL

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Re:Barbearia Nova Era
« Reply #5 on: May 16, 2011, 02:27:22 pm »
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Caro GADREL,
Os vídeos que me encantam tem que ser instrutivos ou com uma boa história o permeando! Postar por postar, não gosto!
José Luís Tomé Gonçalves - Aspirante a ajudante de auxiliar de aprendiz
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Offline GADREL

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Re:Barbearia Nova Era
« Reply #6 on: May 17, 2011, 05:33:51 am »
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Caro GADREL,
Os vídeos que me encantam tem que ser instrutivos ou com uma boa história o permeando! Postar por postar, não gosto!
Concordo plenamente Caro José Luís.
Abraços. ;)
LEGIO PATRIA NOSTRA.